VOCAÇÃO
- Alvaro Nunes

- 17 de set. de 2023
- 4 min de leitura
A tentativa de moldar uma personalidade é muito perigosa, porque pode comprometer uma vida inteira. É preciso lembrar que uma criança é um ser tão completo quanto uma pessoa madura ou idosa. A única diferença está nos conhecimentos adquiridos e nas decisões tomadas. O final é o mesmo, pode ser feliz ou frustrante. Naturalmente uma criança é um papel em branco, mas cabe a ela mesma, em sua evolução, escrever a história de sua vida.
Quero me referir especialmente à questão da tomada de decisões. Os pequenos, certamente, receberão o ensinamento formal, terão a atenção e os cuidados necessários, deverão receber bons exemplos, frequentarão ambientes saudáveis e lhes serão mostradas as opções que poderão tomar em suas diversas fases de amadurecimento como ser humano. Mas a coisa para por aí!

Quantas pessoas vivem uma insatisfação até permanente, caso sejam tolhidas em suas decisões, que deveriam ter sido autônomas e independentes. E isto se aplica tanto a modelos de escolas, liberdade para relacionamentos e a escolha da profissão que lhes permitirá se manter, evoluir, assumir compromissos e se realizar. Histórias de frustração se contam todos os dias, de pessoas as mais diversas. Até os jovens, uma vez obrigados a terem atitudes que lhes sejam impostas, poderão perder o seu rumo na vida. E, quando chegar a maturidade, este engano vai cobrar seu preço. Por isto os casos de depressão e ansiedade são cada vez mais comuns, de parte daqueles que receberam imposições das quais não cabia discussão. Até mesmo casamentos mal sucedidos são fruto de sugestões que não são ditadas pelo amor dos parceiros, mas sim por conveniências, comodidades, precipitação.
Tudo deve evoluir a seu tempo e hora, mas a independência no plantio irá determinar o sucesso ou o insucesso da colheita. E esta colheita é a vida que segue no dia a dia, que será satisfatória ou não. Por exemplo, quanta gente sente-se profundamente infeliz com a profissão que não foi fruto de sua escolha independente. Quantos profissionais acordam com o peso de levar adiante mais um dia para depois se recolher ao lar sem condições de conviver bem com familiares ou amigos.
É ilusão tentar direcionar a vida de alguém, pois o resultado não será atingido. Da mesma forma o protecionismo exagerado é um dreno por onde escorre a iniciativa de uma pessoa. Ajudar a aliviar cargas é benéfico, mas assumir a carga por outrem, mesmo que seja um ato de boa vontade, induz a uma certa fraqueza de espírito. Há compromissos e opções que devem ser fruto de total liberdade e muita reflexão, e isto não se aprende em nenhuma escola.

A evolução humana se dá em meio a decisões que podem levar a sacrifícios passageiros e tais decisões devem ser dosadas pelo próprio indivíduo, na faixa etária em que se encontra. Por exemplo, determinar uma profissão a um jovem na sua adolescência é um abuso, acelerar um relacionamento por interesse ou para se libertar de alguém cujo convívio não seja mais interessante pode levar ao comprometimento precoce e irrefletido de duas vidas.
Aqui entra o tema desta conversa, qual seja a VOCAÇÃO. Ela é uma das opções menos consideradas, mormente quando se tenta impor escolhas a alguém que está seguindo o curso de sua vida. Apressar ou limitar seus passos ofende um pressuposto natural da existência. Acertos e erros certamente irão conviver entre si, mas o que importa é a LIBERDADE que se teve para assumi-los. Até a mera interferência em questões corriqueiras, por meio da precipitação de se livrar de uma dúvida, é prejudicial, porque as consequências poderão ser a longo prazo.
Por tudo isto, a Vocação deve ser considerada como um valor fundamental a ser respeitado. Se cada um fizesse suas escolhas com autonomia a vida seria melhor. Pessoas satisfeitas consigo mesmo e com suas decisões certamente iriam interagir melhor entre si, por se saberem fazendo aquilo que de melhor sabem fazer, livres de grilhões que lhes tentaram impingir no passado. A questão dos resultados pouco importa, mas a tendência é que eles sejam bons e frutíferos.
Para quem se viu, em qualquer fase da vida, induzido a fazer algo que não desejava, resta a opção de refletir e de recomeçar. Quem sabe um hobby, ou um trabalho comunitário, por exemplo permita o resgate da vocação e que poderá trazer um “estalo criativo” que represente uma nova oportunidade, inclusive profissional. Existe a tentação de se dar por vencido, muitos sucumbem provisoriamente, mas se esforçar para sair de uma situação insatisfatória requer esforços ou mudanças muitas vezes radicais, para encontrar o caminho que gostaria de ter seguido e não o foi, por força das circunstâncias. A felicidade tem graduações, muitas vezes não passa de frivolidades, mas o sentimento de ser feliz deve começar sempre com a satisfação com a própria vida, o sentimento interior de que tudo valeu a pena ser vivido, minimizando as escolhas forçadas ou erradas e dando valor ao que se pretende fazer da vida de agora em diante.




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