ESTAR LIVRE OU ESTAR SOBRANDO?
- Alvaro Nunes

- 4 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
A sensação de estar livre pode ser maravilhosa, por exemplo, sem maiores obrigações, compromissos ou horários. Mas, pode ser levantada uma dúvida. Será que se está mesmo liberto ou ninguém está dando a mínima atenção para quem quer que seja? Pode ser uma ilusão ninguém lhe pedir nada ou lhe perguntar qualquer coisa ou, simplesmente, não lhe escutar. Isto é apenas solidão.

É provável que se esteja ingressando num terreno um tanto perigoso. Certamente que é melhor ser leve como uma pluma – e isto jamais poderá ser abandonado como proposta – porém há que pensar nas atitudes que beiram entre o ridículo e o patético, a partir do distanciamento progressivo entre as pessoas. Aí vem a pergunta: Será que estou livre ou apenas sobrando num espaço ocupado por tanta gente, adaptando a imagem de Vinicius de Moraes de que “bares são lugares cheios de pessoas vazias”. Pode ser que estejamos embriagados de falsa solidariedade, onde dizer que se está presente é um arremedo de se fazer companhia. As proteções individuais são cada vez mais blindadas, mesmo que tenham um revestimento transparente. O que se deseja mesmo é estar afastado do contato verdadeiro, deixando o outro à margem, com a ilusão de estar usufruindo de sua liberdade. Verdadeiros bunkers translúcidos estão sendo vestidos sorrateiramente, sem que ninguém perceba e isto parte de pessoas que nem tinham nascido nos tempos de bombardeios de guerras ou do naufrágio do Titanic.
Resultado desta liberdade abandonada é que muita gente está morrendo de solidão ou de tristeza, sem terem sido acometidas por qualquer doença. São os que estavam sobrando na vida, difícil será registrar a causa mortis em seus atestados de óbito. Quanta gente vai embora sem que se perceba e, quando se é noticiado, fica só aquele lugar vazio sobrando, a despertar pouco ou nenhum sentimento. Já que citei o grande Vinicius de Moraes, quero exemplificar com os versos de uma canção sua e de Toquinho,
“Um homem chamado Alfredo”.
“O meu vizinho do lado
Se matou de solidão
Abriu o gás, o coitado
O último gás do bujão
Porque ninguém o queria
Ninguém lhe dava atenção
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação
Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
Gente sem vez para amar
Gente sem mão para dar
Gente que basta um olhar
Quase nada
Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada
Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom
Um homem por trás dos óculos
Como diria Drummond
Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver
Embaixo assinado Alfredo
Mas ninguém sabe de quê”
E então, usando um termo empregado na mesma época do poeta: “Sentiu o drama?” Se uma verdadeira “paulada” como esta não despertou sentimentos, não sei o que pode ser feito. Lembra a piada de humor negro quando se informa que fulano morreu do coração, ao que surge a imediata pergunta: “Ué, mas ele tinha isto?” Já é tempo de as pessoas sentirem que, mesmo próximas, estão profundamente isoladas entre si, o que faz com que cada um, embora possa ser mais livre, está é realmente sobrando num conjunto que apenas parece existir. Sair dos isolamentos, espontâneos ou obrigatórios, se faz uma necessidade urgente. Às vezes insisto neste tema porque acho que existe solução, caso contrário não o faria. Não me cabe, porém, enunciar respostas e soluções, apenas procuro as minhas próprias. Cada um que comece a pensar nas suas...




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