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VER MAIS LONGE

  • Foto do escritor: Alvaro Nunes
    Alvaro Nunes
  • 28 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Uma história e suas lições


Certa vez – e assim começam tantas histórias – estava eu a conversar com um amigo, quando ele me relatou o que aconteceu com sua avózinha, com quase 100 anos de idade. Morava ela em sua casa, no local mais alto do terreno, tendo aos fundos uma longa e íngreme descida que levava ao final a um pequeno lago, onde desfilavam alguns animais aquáticos. Um dia, este meu amigo foi visitá-la e a encontrou subindo a ladeira desafiadora e trazendo muitas folhas de bananeira. Ao avistá-la, foi ao seu encontro e, ao tempo em que a ajudava, a repreendeu pelo excesso de esforço que estava a fazer em sua idade. Sua resposta foi a de que ela estava podando as bananeiras porque sua longa e alta folhagem a impedia de ver de sua casa os patinhos nadando no lago. Singela resposta, porém com a sabedoria de alguém que sempre desejou ver a vista que apreciava e tudo o mais que sua visão alcançasse. E concluíram, vagarosamente, a subida. No dia seguinte a senhorinha não sentiu-se bem e foi ao hospital, De lá, pediu um telefone para avisar seu preocupado neto de que estava bem e que no dia seguinte estaria em casa. Pois ocorreu que, neste dia seguinte, ela morreu, suave e em paz.



A história em si é simples mas, para quem reflita sobre ela, pode ter significados mais profundos. De imediato, se pode dizer que a velhinha se foi para vislumbrar outras paisagens, que bem podem ser as visões sem fim do Paraíso, depois de ter presenciado tantas coisas bonitas na Terra. Ainda mais, ao fazer um grande esforço para retirar os obstáculos que a impediam de apreciar o lago e seus bichinhos, ensina que a vida precisa ser vista por inteiro, até onde alcance o horizonte, seja exterior ou interior. Ainda mais, as folhas das bananeiras precisavam ser retiradas para permitir que se veja a vista por inteiro, o que faz pensar num paralelo com a vida, que merece ser vivída em sua integralidade. Outra lição que se deduz é que sempre há tempo para superar as dificuldades e desafios que se interpõem entre nós e nossos objetivos. E, mais uma lição a extrair, é que sempre será tempo para alcançar o que se deseja, caso contrário uma pessoa centenária não se daria ao esforço de retirar de sua frente os entraves que impediam sua visão completa.


Um lago e seus animais podem ser uma singela e pequena imagem, mas não se está pretendendo que todos realizem façanhas prodigiosas, visto que uma vida feliz geralmente é composta de nossos pequenos êxitos, nossa convivência com quem gostamos, os recantos que visitamos e revisitamos, os sabores que degustamos com prazer, as canções que ouvimos e cantarolamos distraidamente, as conversas à toa que nos ensinam algo, as leituras que nos inspiram, os trabalhos que nos enobrecem, até mesmo nossa simples presença junto a quem a necessite. É possivel imaginar quantas lições de vida nossa velhinha com seus 100 anos deve ter dado a outras pessoas, sem o saber.



Cabe refletir também em relação a cada um de nós, quantas vezes apressados e superficiais, deixamos de dar atenção às entrelinhas e mensagens de histórias simples como esta. Talvez, no futuro, nos recordemos de fatos e pessoas que nos ofereceram com seu simples exemplo, ensinamentos que nos teriam sido muito úteis, se lhes dessemos a devida atenção e importância.


Talvez seja tempo de resgatá-los, talvez não. Contudo, para isto, precisamos constantemente retirar as ``folhas de bananeiras`` que tolhem nossa observação da realidade mais ampla. Cada um é capaz de contribuir beneficamente com seu ambiente de acordo com sua medida. Mas que se possa ampliar sempre esta medida, não só pelo aprendizado porém, especialmente pela observação e pela sensibilidade. Temos mecanismos internos, além dos cinco sentidos, que nos permitem interagir com tudo o que existe. Destas conexões, até mesmo involuntárias, vão resultar nossas atitudes perante o mundo. Ao utilizá-las estaremos realmente dando nossa parcela de contribuição para tantas reflexões, sem necessidade de racionalizá-las, basta seguir atento o fluxo da vida. E isto não tem limite, até mesmo uma velhinha!





 
 
 

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