top of page

TRIAGEM

  • Foto do escritor: Alvaro Nunes
    Alvaro Nunes
  • 1 de mar. de 2024
  • 4 min de leitura

Normalmente lembrada como uma aglomerada estação de trem e de metrô da Zona Norte do Rio de Janeiro, é possível, sob outro ponto de vista, entender a palavra triagem como um hábito bastante saudável para os dias de hoje.

Certas situações inesperadas que se prolongam além da conta, trazem consigo a imperiosa necessidade em fazer um exercício de verdadeira triagem pessoal. Até mesmo ela vai se impondo automaticamente. O que já estava desgastado e não era percebido no tempo dos dias normais, aflora em épocas de exceção. Pode parecer que, em situações adversas, o número de relacionamentos aumente, até por solidariedade as pessoas venham a reforçar laços que já possuem com outras, mas, curiosamente, acontece o inverso. É nestas passagens que se acentuam as diferenças, que talvez nem fossem percebidas na sequência da vida cotidiana.


Suportar certas inconveniências vinha sendo possível, enfim, tudo estava acomodado. Soluções comuns, que atendam a todos em tempos de imprevistos, são mais difíceis de se encontrar, primeiramente pela falta do que se chama de consenso. O nível de aceitação e concordância diminui consideravelmente, ao passo que as diferenças se acentuam. Até mesmo se pode lembrar da antiga e anedótica afirmação que diz, “Na lei de Murici, cada um cuide de si!” Deixando de lado o egoísmo que é peculiar a todos, em uns mais e em outros menos, as dificuldades individuais e coletivas representam um duro teste para se avaliar com quem mesmo se pode contar. Aí é que ingressa o processo da triagem. Por exemplo, quem ainda tem o hábito de guardar cartões de visita, irá constatar quantos deles serão lançados fora, naturalmente daquelas pessoas com quem se vislumbra não poder mais conviver. A exclusão de nomes e a saída de grupos sociais será maciça. Ao primeiro sinal de discordância de opiniões, o contato é apagado. E este tipo de eliminação, nestes tempos, tende a ser definitivo, muitas vezes deixando mágoas suficientes para tornar inviável qualquer reaproximação futura. Isto se dá porque, em momentos de crise, a tendência é que as pessoas se desvendem interiormente, pequenas diferenças ou mesmo teimosas discordâncias virão à tona sem disfarces. Não é nos momentos risonhos que as pessoas se mostrarão por inteiro, afinal, com vento a favor todos prosseguirão com facilidade, relegando divergências a segundo plano. Quanto o tempo muda é que surgem as discrepâncias e inconformidades, principalmente estas últimas, já que se inconformar e trazer à superfície as revoltas justificáveis é um excelente sinal de vida inteligente. Os subprodutos desta sensação inquieta surgem de pronto, as teimosias, as implicâncias, os preconceitos, a arrogância intelectual que tolhe o espaço de raciocínio e diálogo. Opiniões passam a ser irredutíveis e aí a triagem irá se acentuando.

Bem se diz que, após as crises, cada um ressurge mais leve e assertivo, muito mais

espontâneo, mas esta leveza também acontece, em parte, através do expurgo de tudo que vinha representando as tantas decepções que se extravasaram nos tempos mais sombrios. Ou seja, a tal triagem acontece queiramos ou não, deixando para trás ambientes, amigos, conhecidos, além de hábitos e rotinas até então não contestadas por puro desleixo. A ilusão do artista de “ter um milhão de amigos” se esboroa de vez, sem apelação.


Esta nova paisagem é constatada de forma indolor, mesmo que, por ocasião das

rupturas ocorridas, simbolicamente como acontece nas mudanças de passageiros numa estação de trem, possam ter sido doloridas. Porém, se percebe que o exercício da seletividade passa a ser algo muito precioso e útil, retira das costas pesos desnecessários. Aceitar uma lista de contatos mais enxuta, de repente, passa a ser um alívio, já que todos estavam mesmo cansados de mensagens vazias e protocolares que lotam as Caixas de Entrada, cansam os ouvidos ou sobrecarregam listas de endereços e telefones.

Sobram aqueles ou aquilo que vai ser realmente útil, prazeroso e agregador num momento de retomada, ficam de fora os excessos inúteis e a perda de tempo e paciência com o que já estava em ponto de saturação ou de acomodação. Este processo renova a vida, seria como despoluir um rio contaminado com tudo que possa ser inútil ou tóxico. Sim, porque é forçoso reconhecer que existem também amizades e companhias tóxicas, as quais não comportavam mais sucessivas depurações.

Cabe a pergunta: Será saudável agregar novos hábitos, rotinas e amizades? A meu

ver isto não se faz necessário, o que sobrou passou por um eficaz teste de resistência. Apenas como exemplo, não caberá reatar um contato desgastado pela discordância contumaz ou pela inveja que transpira entre os aparentes bons modos.

Fica mais claro a cada um identificar, ao mesmo tempo, o que possui de melhor em si próprio, tudo parece ir ficando mais límpido, não seria o caso de turvar este novo ambiente com o que acabou de passar por uma triagem vital. São muitos os caminhos, a partir de agora que cada qual faça a escolha do seu. É momento de se ter confiança suficiente para dizer o que ainda não foi dito a quem quer que seja, para completar a radical faxina que acabou de ser feita. Talvez ainda existam poluentes que precisem ser varridos, para restaurar a plenitude de uma vida renovada. Pode ser que hajam separações a serem consumadas, conceitos que devam ser devidamente esclarecidos e, especialmente, verdades que precisem vir à tona. Não é por acaso que triagem faz rima com coragem.

Enfim, após ter passado por dificuldades, deixando de lado tanta carga inútil, é

imperioso valorizar o que restou, da mesma forma como se lapida uma joia. Após passar por fricções, resistências, choques, pressões, dúvidas, medos e imprevistos, é hora de brilhar de novo.

 
 
 

Comentários


Formulário de Inscrição

Obrigado pelo envio!

41992627324

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2020 por cronicasparaninguem. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page