TER, APEGAR-SE E DEIXAR IR
- Alvaro Nunes

- 20 de out. de 2023
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Estes três verbos são difíceis de encarar, mas resumem boa parte da vida. No nascimento, chega-se ao mundo com absolutamente nada e dependente de tudo. Aos poucos se vai adquirindo autonomia e obtendo os bens que serão necessários para uma digna sobrevivência, mas sempre será sábio entender, quando possível, que tudo é dado por empréstimo, por um período consideravelmente curto em comparação com o vão desejo de eternidade na Terra e com as ambições pessoais, por vezes modestas, por vezes desmedidas.

Há um tempo na vida em que se buscam os bens materiais para uma vida confortável, mas há que distinguir bem o que é conforto e o que pode ser uma opulência desmedida, já que tudo em excesso cobrará seu preço. E não apenas o valor material de cada bem, mas também terá que ser dosado o peso que representa cada coisa em termos da dificuldade em se desfazer dela, se necessário. Bem certo é que existem fases de acumulação onde cada item deverá ser avaliado por sua necessidade, utilidade e transitoriedade, maior ou menor. Há uma distinção teórica entre bens de consumo e bens patrimoniais. Seria preferível que todos estejam alojados na primeira categoria, considerando sua utilidade em certas fases da vida. Os segundos, independente de seu tamanho, seja uma casa ou um souvenir que se traz de uma viagem especial, geram um peso ou volume proporcionais à dúvida em tê-los agregado àquele patrimônio que passa a ser considerado exclusivo e inalienável, geralmente um amontoado de objetos. Muito se fala, normalmente apenas da boca para fora, sobre a necessidade do desapego e tanto se critica aqueles que acumularam coisas demais. Apegar-se, de fato, vai gerando um fardo acumulativo difícil de administrar, tolhendo a leveza de movimentar-se pela vida com mais facilidade. O desapego tanto apregoado, porém, deve ser considerado principalmente no plano interior, nem tanto no plano material. Pensando assim – aos olhos de quem se acostumou a observar os bens dos outros - passa-se ao largo dos perigos da inveja e da comparação, tão sedutores e relativamente imperceptíveis, mas jamais imunes a um verdadeiro exame de consciência. Em tempos de culto à coletividade em detrimento do individual, há que se reconhecer que, ao fim das contas, cada pessoa determina livremente aquilo que deseja possuir e vai em busca disto com seus recursos disponíveis. É muito enganoso, num planeta de bilhões de seres, ater-se a observar apenas aqueles que desfrutam de uma condição material suntuosa, já que representam uma ínfima minoria. Os demais, se assim se pode dizer, são diferentes uns dos outros, especialmente em seus desejos e prioridades. Mas, a leveza do desapego consiste na difícil arte de reconhecer que tudo pode ser provisório, cabendo manter não só o que está sendo útil para cada momento, mas também aquilo que trouxe prazer e proporciona boas recordações, com critérios e limites aceitáveis. Contudo, há que se controlar para não se transformar num acumulador compulsivo, trazendo apenas para si tudo o que lhe chama a atenção. Agir assim pode ser como saltar num solitário poço de amargura por, literalmente no fundo, saber que nem tudo lhe poderá pertencer para sempre e que todo entulho irrefletido constrói um muro entre si próprio e as outras pessoas.
Mais cedo ou mais tarde chegarão momentos em que será preciso se desfazer daquilo que praticamente imobiliza, pois o peso é demasiado para manter um estoque de coisas que, mesmo tendo um valor afetivo reconhecido, impede que a vida continue em seu movimento. É reconhecido que a vida é uma brisa em comparação a tudo que existe há séculos, mas entender isto pode ser muito difícil e doloroso. Todavia, basta observar os escombros de civilizações antigas, de cujos habitantes quase não se tem notícia, demonstrando uma opulência que se foi com os tempos, deixando rastros daquilo que talvez não seja o melhor a fazer, como erigir construções suntuosas, acumular bens e riquezas, mesmo que tudo se transforme num imenso mausoléu, objeto de curiosidade e estudos séculos depois. Estudos estes, aliás, extremamente úteis para aprender técnicas sofisticadas mas que se prestaram a suprir apenas o lado material da sobrevivência, esta é uma verdade um tanto inconveniente. Por outro lado, há comunidades que vêm mantendo uma certa frugalidade confortável, supridas do que é necessário para sua sobrevivência e progresso e que vem deixando atrás de si um bem fundamental para a vida, que é o conhecimento, em outras palavras, boas práticas para se viver e conviver. Toda civilização, seja materialista ou não, legou à posteridade os ensinamentos de seus sábios, e isto é o que as perpetua.
Voltando ao aqui e agora, o direito de ter algum bem e, do outro lado, a sabedoria de saber abrir mão dele quando cumpriu seu papel é como equilibrar-se num tênue e instável fio, é um exercício dos mais difíceis. Certamente que cada um é sabedor do que representa importância na história de sua própria vida, o que é importante ser mantido, mas que tudo isto possa caber num espaço, tanto físico quanto emocional. Talvez esta seja a sabedoria mais sutil de todas, que congrega os três verbos iniciais, quais sejam, Ter, Apegar-se e Deixar Ir.

Se acumulam os depoimentos de quem percebe estar chegando ao fim da jornada, arrependendo-se de ter acumulado tantos objetos e preservado-os egoisticamente e em excesso, trazendo a espinhosa dúvida de lhes ter dado importância demais e de não tê-los, suavemente e de pouco em pouco, partilhado-os com os outros. Aliás, uma partilha até duvidosa, já que a maior parte do que retemos diz importância apenas a nós mesmos, tendo apenas serventia para os pósteros que tenham interesse nos legados deixados. Caso contrário, será mais um amontoado de entulhos que será doado ou lançado fora, não sem remorsos dos legatários imediatos. Nestas horas, o velho e bom conceito de que “Tudo Passa” receberá a importância que lhe é devida. Assim, quem se sabe ao fim do caminho percebe que, da mesma forma com que chegou, irá embora. Por isto, a proposta é de que se alcance uma espécie de “sabedoria da leveza”, um dom que, certamente, não se aprende sem sacrifícios.
Concluindo, este é um dos raciocínios mais difíceis de enfrentar, porque propõe questionamentos quase heróicos, visto que somos todos de carne e osso, apreciamos o conforto, recebemos a toda hora apelos consumistas, tentando nos fazer crer que não temos limites. E, quando o horizonte chega mais perto, nos damos conta que o começo e o fim são, no fundo, a mesma coisa, tudo se desfaz em pó ou cinzas, restam apenas os exemplos imateriais de valores e princípios que deveriam nortear a felicidade da humanidade, nada mais.




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