O TEMPO NÃO PARA!
- Alvaro Nunes

- 23 de fev. de 2024
- 3 min de leitura
Quando se tem a falsa ilusão de que já se fez tudo e que basta deixar o barco
correr, pode surgir uma cachoeira pela frente. Isto obriga a um movimento criativo o suficiente para mudar o rumo, quem sabe para outro fluxo. Já se sabe que todas as águas correm para o mar, para um encontro de tudo e de todos. Contudo, há infinitos meios e caminhos para se chegar lá. Mais do que uma dissolução será uma união, nada se perde, muito menos a consciência de si. Mas o que virá pela frente jamais poderá ser considerado uma surpresa, conter o fluxo também nunca será possível. Tentar interrompê-lo é uma violência que contraria o fato de existir, vez que nada é estático. Ser algo ou alguém é um direito inalienável que se recebe gratuitamente e que, portanto, é digno de um agradecimento e um convite ao exercício de dons e de missões que completamos projeto de uma vida em movimento, não há como escapar. E que se faça
disto um trabalho prazeroso o máximo possível.
Tudo muito bonito até aqui mas, quando se percebe que as coisas não estão dando certo? Surge uma encruzilhada que, muitas vezes, demonstra, naquele momento, um trajeto difícil e outro mais ainda. O que fazer, já que nada sinaliza uma escolha, sugerindo, talvez, um caminho ruim e outro menos pior? Estas podem ser apenas impressões iniciais, nada encorajadoras mas, de fato, uma opção deve ser tomada. Somos seres acostumados com uma dicotomia, o que reduz as alternativas, a princípio, a apenas duas delas. Mas não é bem assim. Inteligência, criatividade, paciência, prudência e coragem são algumas ferramentas a permitir que se abram as tais “picadas” no meio da incerteza, oferecendo imprevistas e numerosas iniciativas.
Há que lembrar o frequente conselho de “cavar mais fundo”, geralmente oferecido por quem, com ou sem esforço, está estabilizado, a ponto de não enfrentar, no momento, grandes riscos ou desafios, embora eles sempre possam aparecer. Para quem o recebe, geralmente em momentos difíceis, ocorre o dilema de não poder avaliar os recursos com que se conta para chegar a um horizonte mais favorável ou, ao menos, dentro de suas expectativas, para que possa se deter e observar o ambiente em que se
chegou, comparando-o com o que está pretendendo. Sob outro ângulo, trata-se de observar uma realidade atingida e poder confrontá-la com o que se deseja atingir, visto que, conforme o título desta conversa, o tempo não para. Há quem tenha “cavado” bastante e corre o risco de se deter com aquilo que considera perto do suficiente, sendo que, pouco adiante, poderia ter atingido uma mina de ouro. Este é um dilema que assombra qualquer pessoa, já que nada na vida se detem, o que permite que oportunidades estejam sempre ao alcance, vendo a situação pelo lado realista e igualmente positivo.
Como vivemos sempre numa floresta de interrogações, surge aquele momento que resolvo denominar de “calibragem”. Explicando melhor, vivemos entre expectativas e realidades, aproximar estas duas situações, uma almejada e outra já existente, irá depender da calibragem de nossas ações. Todavia, aqui não se deseja propor que se chegue a um estado de exaustão permanente, ao se elevar o campo das expectativas de forma indefinida, o que pode provocar um estado de frustração e exigências contínuas. A vida, sem dúvida, nos leva a momentos de cansaço, mas este não deve levar a um estado de exaustão, que pode favorecer até a uma desistência, o que se constituiria em uma arma direcionada contra si próprio. Talvez seja mais sábio tentar aproximar a realidade das expectativas, sempre sob uma ótica realista.
Assim, parar não é uma opção a ponderar, tudo está em constante movimento, contudo esgotar-se é algo próximo de um final inglório. Alegrar-se, usufruir da vida, saborear os próprios êxitos são o tempero de uma existência que, mesmo não podendo ser a idealizada em fantasias, pode ser o bastante para a singela e essencial sensação de ser feliz. Para fechar este raciocínio, é importante relembrar sempre que cada um tem seus limites que lhe são próprios. Alguns possuem atributos para ir materialmente bastante além do que outros, porém cada qual é dotado de recursos necessários para se realizar e este é um sentimento dos mais íntimos. A realização pode ser dosada para as várias etapas da vida, situando-se pacificamente entre os limites da realidade e das
expectativas de cada momento, dentro dos limites em que cada qual se move, ao fazer aquilo que seja coerente com suas sinceras aspirações pessoais e este é um território que lhe pertence desde sempre, ao qual lhe caberá estabelecer os próprios limites.






Comentários