O QUE ME INTERESSA?
- Alvaro Nunes

- 1 de jul. de 2024
- 4 min de leitura
Esta pode ser uma pergunta banal, se for respondida num momento do cotidiano usual, sem precisar pensar no que ela significa. Mas a questão traz uma interrogação que merece ser refletida. Na essência, o que me interessa DEFINE QUEM EU SOU!
O que nos passa despercebido é que, diariamente, nos são sobrepostas camadas em nossos pensamentos, atitudes e decisões. Muitas delas mais espessas e pesadas do que a carapaça de uma tartaruga gigante! Talvez por isto mesmo aconteçam dias em que nos sentimos pesados e desconfortáveis, como se tivéssemos realizado muitas coisas, talvez menos aquelas que realmente desejaríamos.
A quase inevitabilidade de que fatos e pessoas nos influenciem é sempre crescente e da forma mais sutil possível. Falar da influência subliminar da publicidade já é algo corriqueiro, muito embora estejamos quase sempre no grupo dos incautos ludibriados. Outro exemplo repetido nos aconselha a irmos ao supermercado comprar alimentos apenas depois das refeições, bem como tomarmos atenção ao observar as prateleiras que não estejam em nossa linha direta de visão, onde estão os produtos que nos sugerem comprar por impulso e comodidade de acesso. Da mesma forma, nunca será demais recomendar que, em momentos de ansiedade – que são cada vez mais frequentes – nos dediquemos a algum tipo de atividade física, coordenada ou não, no sentido de evitarmos a todo custo nos dirigirmos aos templos de consumo que são os Shoppings. Se isto suceder, é certo que voltaremos para casa, já com leves sintomas de arrependimento, carregando diversas sacolas, não raro repletas de quinquilharias e inutilidades que irão se comprovar inúteis num futuro bem próximo.
Cabe especular o porque de nos iludirmos com atitudes que não espelham quem realmente somos. De princípio, é preciso reconhecer que nos são apresentados modelos de uma sociedade tão fútil, consumista e enganosamente ideal. E estes modelos são representados por pessoas fabricadas como bem-sucedidas, em atitudes artificiais e cuidadosamente ensaiadas, normalmente postadas junto a objetos de consumo supérfluos ou em ambientes ricamente produzidos, tudo muito distante da vida real. Por exemplo, caso se encontre uma produzida celebridade, ou mesmo sub-celebridade efêmera, flagrada num ato de distração, vivendo sua personagem normal, talvez não seja identificada ou, ainda pior, receberá aquela constrangedora constatação: “Mas, é só isto? Que enganação!” Com todo o respeito, quem ainda consegue frequentar desfiles de moda, algo tão brega quanto artificial, me permito perguntar: Alguém já viu outra pessoa usando em seu dia a dia os trajes que os modelos garbosamente desfilaram?
São comentários superficiais que pronunciamos os que nos revelam as diversas camadas que nos recobrem e que não são, definitivamente, nossas. São exatamente elas que nos tolhem a autenticidade que pretendemos ter sempre. E o que dizer dos modismos que pretendem nos impingir, dos refrões que nos fazem repetir mecanicamente, das músicas grudentas e sem sentido que enfiam em nossos ouvidos, a ponto de impregnar nossos cérebros, das gírias idiotas que se intenta impor a nosso vocabulário, das palavras enganosamente inteligentes – geralmente anglicismos – para fazer supor uma ridícula superioridade intelectual? Exemplos similares a estes podem preencher mais páginas e páginas!
Tudo isto que precede tem a intenção de nos AFASTAR DE NÓS MESMOS, de colocar em nossa frente viseiras e barreiras que nos proíbem de nos encararmos frente a frente, em espelhos reais. Aliás, antes disto, também nos são ofertados tantos outros espelhos distorcidos, para nos iludir de que talvez sejamos aquelas imagens estereotipadas que pretendem que aceitemos como reais, já que esta grotesca farsa se presta apenas a nos manipular.
Voltando ao ponto de partida, O QUE REALMENTE NOS INTERESSA? Estejam certos de que são muito menos condutas que podemos imaginar, existe um numero muito maior de coisas artificiais que nos impedem de sermos tão somente NÓS MESMOS! Pode parecer fácil remover os entulhos que nos afastam de nossa realidade pessoal, mas não é! Para demonstrar isto, vamos recorrer ao número cada vez maior de acumuladores obsessivos, que nem se dão conta de tudo que recolheram, com a finalidade única de os esconder de si mesmos. E todos nós, em maior ou menor grau, podemos estar procedendo da mesma forma. Ser você mesmo corresponde a algo tão simples e básico que nem nos damos conta. Me ocorre o título da célebre música do Zeca Pagodinho, “Deixa a vida me levar”, apenas tomando os cuidados básicos para não permitir se impregnar de manias, preconceitos, imitações, emulações, rivalidades, mentiras, ostentação e tantos outros tapa-olhos que nos enganam e escondem a simplicidade de ser apenas si próprio.
A vida está cada vez mais complexa e exigente, é preciso estar atualizado sempre, mas isto não implica em agregar informações e condutas inúteis, oferecidas por terceiros que pretendem fazer de todos nós um rebanho de idiotas tutelados e teleguiados. Olhar para os lados já é um progresso, levantar a cabeça um ato de ousadia ao meio da mediocridade e egoísmo reinantes, olhar para si mesmo com orgulho e se reconhecer como um ser único, pode até parecer heroico, mas é uma atitude hoje impositiva e, por que não dizer, SALVÍFICA.






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