ESTÃO INDO AS CASAS E QUINTAIS…
- Alvaro Nunes

- 15 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Estive conversando dia destes com uma pessoa que pretende vender sua casa e adquirir um apartamento pequeno em sua cidade e outro no litoral. Isto me parece uma questão geracional, muito além da simples nostalgia de ter uma casa. Assim como eu, esta pessoa passou sua vida em casas grandes e com enormes quintais. Eu sempre morei desta forma, por quase setenta anos e ainda estou me acostumando a habitar um apartamento há quase sete anos. O que ainda me dificulta é que, por mais áreas comuns, jardins, serviços disponíveis, tudo isto não é meu, não posso dispor destes equipamentos na hora que quiser e a meu critério. Como são espaços comuns, existem normas, horários, proibições que devo obedecer, em nome de uma comunidade de outros proprietários. Passado algum tempo, ainda me ressinto da falta do que chamo de pertencimento, ou seja, por mais amplo e confortável que seja um apartamento, devo restringir minha liberdade a sua área privativa.
As chamadas ``casas de rua``, há não muito tempo atrás eram nossos redutos particulares e exclusivos. Seu entorno o fazíamos como desejávamos, com árvores, trilhas, pedregulhos, plantas e dele usufruíamos com total liberdade. Se o gramado estava alto, tínhamos um jardineiro de confiança ou nós mesmos o aparávamos. As árvores frutíferas eram de nossa escolha, colhíamos e consumíamos seus frutos. Brinquedos, ferramentas e outros objetos os deixávamos onde entendêssemos, não necessariamente em seu lugar… Os carros, embora houvessem garagens, podíamos estacionar onde quiséssemos e nem precisavam ser trancados. E os tão queridos quintais eram nosso refúgio, os percorríamos descobrindo coisas novas, tanto no solo quanto em nossas cabeças, neste espaço privativo onde fazíamos nossas reflexões. Eram locais para brincar, repousar, meditar, plantar flores ou simplesmente fazer nada, deixar a vida fluir junto com a natureza. Só como ilustração, parei um dia destes em frente a um terreno que abrigou a casa de um amigo de infância. Tudo estava em estado de abandono, a casa foi demolida, mas os espaços de lazer estavam lá, intactos, embora tomados por um desordenado matagal. Não há como não ter boas lembranças, mas não quero enveredar pelo saudosismo, não é esta a intenção desde o início.
Com a insegurança literalmente arrombando nossas portas uma solução intermediária passaram a ser os condomínios fechados de casas. Tínhamos neles um bom espaço, liberdade relativa e um conceito mais moderno de casas que, mesmo com restrições condominiais, obedeciam a um conceito pessoal, era dada liberdade à arquitetura. Ainda podíamos reservar espaço para nossos quintais, plantas, árvores frutíferas, fontes e termos até nossos animais domésticos, porém com restrições de circulação. Mas eram inevitáveis os desentendimentos, geralmente por motivos fúteis ou egocêntricos, que eram despejados nas Assembléias Gerais, onde acordos eram negociados, geralmente sem contentar todas as partes. Detalhes como o tipo de grama das áreas comuns, paisagismo, acesso e controle de veículos, plantas cujos ramos invadiam por centímetros as áreas dos vizinhos, restrições às brincadeiras das crianças, ruídos excessivos fora de horário, reclamações sobre funcionários, equipamentos de segurança que não funcionavam e vai por aí a ladainha que todos conhecem ou ouviram falar.
Uma tentativa de aprimoramento habitacional foram os chamados condomínios-clube que, além da moradia em si ofertavam uma infinidade de serviços que, em sua maioria ficavam ociosos, mas onerando sobremaneira as taxas condominiais. Sala de cinema, espaço jovem, sala de jogos, cinema, salão de festa, academia, enoteca, spa são algumas opções oferecidas, pretendendo ofertar auto-suficiência aos condôminos. Mas os moradores têm seus lugares de preferência para estas atividades, além do que sair de casa para compras, atividades de lazer, visita a amigos, convívio social são essenciais. Basta recordar a época da pandemia, que trancou todos em casa e impediu o uso dos ambientes oferecidos. Curioso é que, mesmo depois disto, uma vez liberados os espaços, a frequência não aumentou. Vá lá que uma academia, uma piscina, um salão de jogos, um playground, uma cancha de esportes são muito atrativos, mesmo assim o custo é maior que o benefício, além dos desentendimentos e queixas dos usuários.
No momento atual, mesmo com os riscos inerentes, as pessoas querem estar nas ruas, nem mesmo os shopping centers estão com a clientela estagnada. Diria eu que seus frequentadores são os ``domesticados``pelo brilho das lojas, pela gastronomia compactada em espaços definidos ou pelos cinemas. De resto, é uma questão de ``ver e ser visto``.
Muito bem, as casas e seus quintais estão voltando a ser objeto de consumo, não pertencem ``aos tempos que não voltam mais``. Estão sendo procuradas porque as pessoas querem voltar a ser livres e dar satisfações apenas a quem devam ser dadas. As crianças sempre vão querer brincar ao ar livre, o vício das telinhas começa a dar sinais de cansaço. Aliás, máquinas são para serem usadas para o que foram criadas.
Um novo conceito começa a tomar corpo, são as chamadas Edge Cities, cidades projetadas para o futuro, com bem-estar, custo de vida baixo e alta qualidade de vida. Ainda são uma tendência, talvez idealizada, porque estamos às voltas com tantas dificuldades urbanas que pensar no planejamento do futuro envolve inúmeras variáveis, mas é necessário fazê-lo. Estamos numa era de incerteza, complexa e conflituosa. Nos vemos diante de muitas encruzilhadas.
O modelo das Edge Cities parece adequado para uma nova geração que já vem dando seus sinais. Na prática seus locais seriam a evolução dos subúrbios tradicionais para centros econômicos autônomos, situados na periferia das grandes cidades. Seria uma inovação ao modo de viver que dá sinais claros de esgotamento. O objetivo seriam comunidades auto-sustentáveis. Evitariam os problemas de grandes deslocamentos, como ocorre hoje, seria prevista a manutenção das áreas verdes ainda existentes na periferia, seria implantado um projeto de segurança residencial integrado, áreas comerciais e de escritórios próximas e com zonas industriais distantes. As Edge Cities, uma vez viabilizadas, serão uma proposta de evolução do modo de vida, embora haja um grande caminho a percorrer. Mas, sem dúvida, será exigida a aceitação de uma nova modalidade de viver, mediante regras de ocupação para morar e trabalhar, em conjunto com a oferta de bens e de serviços que as torne auto-suficientes. A pretensão é que sejam uma solução equilibrada, abrangendo emprego, entretenimento, consumo e lazer. Resta saber se uma proposta assim formulada não estaria comprometendo a liberdade de habitar num local realmente seu, respeitadas as individualidades, mas onde haja equilibrio entre estar em comunidade e ter o seu lugar no mundo, aquilo que chamei no início de pertencimento.
Uma solução precisa existir para o dilema de preservar nossa humanidade, ao mesmo tempo em que possamos usar a tecnologia em nosso favor. Precisamos, com urgência e competência, conciliar passado e futuro para podermos bem viver o presente.
A título de reflexão, lembrando que ``o ser humano é a medida de todas as coisas``, deixo a canção de Paulinho Tapajós e Sivuca, chamada ``No tempo dos quintais``.
Era uma vez um tempo de pardais, de verde nos quintais
Faz muito tempo atrás, quando ainda havia fadas
No bonde havia um anjo pra guiar, outro pra dar lugar
Pra quem chegar sentar, de duvidar, de admirar.
Havia frutos num pomar qualquer, de se tirar do pé
No tempo em que os casais, podiam mais se namorar
Nos lampiões de gás, sem os ladrões atrás
Tempo em que o medo se chamou jamais.
Veio um marquês de uma terra já perdida
E era uma vez se fez dono da vida
Mandou buscar cem dúzias de avenidas
Pra expulsar de vez as margaridas
Por não ter filhos, talvez por nem gostar
Ou talvez por mania de mandar.
Só sei que enquanto houver os corações
Nem mesmo mil ladrões podem roubar canções
E deixa estar que há de voltar
O tempo dos pardais, do verde nos quintais
Tempo em que o medo se chamou jamais.







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