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BIPOLARIDADE

  • Foto do escritor: Alvaro Nunes
    Alvaro Nunes
  • 3 de mai. de 2024
  • 4 min de leitura

Não, aqui não se irá tratar de um estado emocional que oscila entre as denominadas euforia e depressão. Basta saber que isto existe, é real, faz parte de um glossário das doenças invisíveis, tão mal consideradas por aqueles que tem a felicidade de não experimentá-las. O que se quer retratar a partir deste termo tão assustador são aquelas variações momentâneas pelas quais qualquer um passa diante de situações extremas como a alegria e a decepção.

O planeta Terra demonstra em si o que são variações, por exemplo, a distância enorme entre os mais de dez quilômetros da abissal Fossa das Marianas, seu lugar mais profundo, e a altura onde termina a atmosfera. A ninguém é dado conhecer estes extremos, apenas se sabe de sua existência. O corpo humano também serve de exemplo, seu maior exemplo são os movimentos de sístole e diástole, os dois estágios do ciclo cardíaco, onde os órgãos, a partir do incansável coração, se enchem e se esvaziam do sangue que neles circula.

Vamos a exemplos que demonstrem com simplicidade estes dois extremos. Quando o porteiro de seu prédio anuncia a chegada de uma encomenda, você vai correndo recebê-la, como se fosse o objeto de desejo mais esperado, e geralmente o é, a cada novidade que se almeja obter. Mas, infelizmente, trata- se de outra encomenda, ou para uma pessoa de sua própria casa, ou, mais decepcionante ainda, é para um destinatário errado... Você cai das alturas para um buraco que parece sem fundo! Ou, em outro caso, seu time preferido é totalmente favorito para conquistar um título, falta apenas um jogo e o resultado lhe é surpreendentemente negativo. Cancelar a comemoração é uma das experiências mais negativas, de nada adianta ficar lambendo as feridas, tentando racionalizar o porque daquilo ter acontecido. Some o céu e falta o chão!

Enfim, não estamos o suficiente preparados para decepções, talvez porque estejamos sendo bem sucedidos e não nos damos conta disto. Um revés, por mais passageiro e acidental que seja, conduz a uma tristeza abissal e nos parece que não sairemos jamais daquele incômodo estado. Uma eleição, uma competição esportiva, a perda de um compromisso aguardado, precipitam a maioria das pessoas dos céus aos infernos. E, se aconteceu algum engano, o resultado da partida foi revertido, a pessoa esperada retorna, o evento para o qual nos atrasamos não aconteceu, aquele filme tão aguardado ainda não entrou em cartaz, a euforia volta com toda a força, por incrível que possa parecer. E, tanto ela quanto a depressão não são estados saudáveis...

Fato é que parecemos estar excessivamente sensíveis ou, quem sabe, não estamos mais conseguindo suportar tantas oscilações, tanta manipulação dos sentimentos, tantas notícias desanimadoras, tanta falta de esperança. Então, as oscilações não seriam tão desmotivadas assim, a realidade anda difícil de suportar. Existem situações em que não deveríamos nos desesperar, afinal existem paliativos satisfatórios e soluções num prazo maior daquele com o qual contávamos, porém a hipersensibilidade geral vem se expandindo, cada vez mais exacerbada entre erros e acertos, sucessos e fracassos, boas e más informações, vitórias e derrotas.


Todavia, não há como negar que, em certos tempos, como o atual, o que é positivo talvez esteja tardando a chegar e o que destrói e divide parece estar vencendo o jogo da vida. Fala-se em tempos previsivelmente difíceis, devido a erros e maldades já cometidas, ou em passagem de Era, ou em transições planetárias, enfim todo tipo de explicação, objetiva ou subjetiva, mas o fato é que nosso material é frágil, suscetível a choques bruscos, desprotegido de espertezas que servem para nos iludir. É inevitável que se passe por altos e baixos, mas ficar destituído de horizontes de esperança seria para super-homens que só existem na ficção, nós, os comuns mortais não fomos feitos para tantos solavancos e para tanta escuridão que se nos afigura diante de nós em certas quadras do tempo. A falta do Sol nos aborrece, o frio excessivo nos desanima, tudo o que é extremo e prolongado prejudica nosso desejo de progredir, de ter uma relativa estabilidade, de poder vislumbrar um futuro sem tantas oscilações bruscas e profundas. Às vezes podemos mesmo estar num estágio comparável ao fundo de um poço, mas que haja degraus disponíveis para subirmos e que brilhe ao menos uma réstia de luminosidade logo acima de nós e que possa ser alcançada num tempo que nos seja previsível. A vida atual tem muito de bipolaridade mesmo, algumas vezes com fases baixas injustificadas, mas outras tantas que precisam ser superadas. A sabedoria ancestral nos diz que os extremos fazem parte de uma mesma realidade, por exemplo, o amor e o ódio, que tudo é reversível e também que existe um ponto de equilíbrio que permite vislumbrar os extremos e sopesar suas vantagens e desvantagens. A realidade é que ansiamos por este equilíbrio, fazemos o possível para atingi-lo e desejamos ficar equidistantes dos extremos, porque um pode arruinar e o outro seduzir. Precisamos encontrar este estado harmônico, e só o conseguiremos se, preferencialmente, estivermos todos de mãos dadas.



 
 
 

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