APRENDER A AJUDAR
- Alvaro Nunes

- 10 de nov. de 2023
- 4 min de leitura
Quando alguém se interessa em praticar algo de sua predileção, mesmo que seja dotado de um talento inato, este precisa ser burilado por um aprendizado especifico, muitas vezes demorado, exigindo paciência e atenção. Além disto, se exige a compreensão dos detalhamentos que permitirão absorver as minúcias, as quais permitirão desenvolver um estilo peculiar e, finalmente, concedendo autonomia prática e originalidade.
Isto é bem claro quando se deseja praticar qualquer esporte, desenvolver o pendor e as técnicas para alguma arte, por exemplo. Porém, existe um aprendizado muito útil que é desconsiderado pela maioria, que é APRENDER A SERVIR. Para que se possa realmente identificar necessidades e se prestar a oferecer algo positivo ao outro, boa vontade, atenção, disponibilidade e sentimentos positivos são indispensáveis. Mas, para que qualquer ajuda seja realmente eficaz e duradoura, se carece de um aprendizado. Isto porque ajudar também objetiva resultados, representa igualmente um compromisso, embora de teor totalmente subjetivo. Toda ajuda deverá estar revestida de comprometimento, mesmo que provisório. Toda criança é amparada em seus primeiros passos, depois que andar com desenvoltura, este apoio se tornará desnecessário. Aplica-se aqui o velho exemplo de “ensinar a pescar” e se retirar humildemente quando a missão esteja cumprida.

Dar uma esmola, pagar um dízimo, doar uma roupa usada que talvez até nem sirva mais, são auxílios de real valor, mas se esgotam no próprio ato, não são capazes de formar um vínculo. São atitudes que até podem ser repetidas regularmente, mas vão pouco além do âmbito material. Muitas vezes nem se saberá a quem se está ajudando – e isto realmente pouco importa – contudo nem um olhar ou uma palavra serão trocados.
Numa atmosfera individualista em que nos encontramos, prestar atenção real ao que ocorre em nossa volta requer um tanto de observação. O distanciamento entre as pessoas, a pressa em entrar e sair rapidamente de qualquer situação, já vem se constituindo num padrão. Mesmo que tudo venha se tornando cada vez mais rápido, a presença atenta entre semelhantes vem sendo cada vez mais negligenciada. Rapidez e sentimento NÃO são conjugados no mesmo diapasão. Toda comunicação humana, porque ainda não somos máquinas – embora se tente fazer isto – não pode prescindir de qualidade e profundidade. O mais curioso é que correções podem perfeitamente serem feitas no trato interpessoal, mediante um aprendizado bastante sensível, aliás. Resultados materiais, relativos a produtos e serviços, podem ser facilmente quantificados, já progressos no relacionamento humano deixam de obedecer a qualquer métrica, contudo, há como avaliá-los de forma mais sutil e aperfeiçoada.
Já que o tema é aprender, a primeira lição pode ser através do desenvolvimento da sensibilidade, mesmo que bastante endurecida pelos embates diários enfrentados. A título de incentivo, cabe pesquisar se alguém está fazendo algo em prol desta qualidade. Não quero me referir a trabalhos especializados e que exijam formação técnica, como no caso dos profissionais da saúde. Todos, como cidadãos comuns, seremos sempre reles amadores na verdadeira arte de compreender a vida, tanto no aspecto individual quanto no coletivo, mas podemos nos aperfeiçoar com o passar do tempo. A autenticidade é uma palavra-chave, só poderemos fazer algo produtivo quando formos realmente nós mesmos, todo disfarce encobre a realidade. Estar atento para reconhecer que cada um desenvolve seus conceitos e idiossincrasias particulares é essencial para admitir de verdade que somos todos diferentes em nosso conteúdo íntimo.

Atualmente vivemos rodeados de todos os lados por telas digitais, movidas pelo simples toque de um dedo ou até por contato visual. Fixar a atenção num assunto ou numa pessoa exige um tanto de disciplina pessoal. Em contraponto, nenhum de nós é plenamente estável, cabendo aqui a ideia da “metamorfose ambulante”, tão bem expressa pelo Raul Seixas. Ou seja, podemos, ou até mesmo precisamos mudar, em nome da adaptação e do crescimento individual. Como benefício, ao nos movermos estaremos nos conhecendo sempre melhor, lembrando sempre de que, como às vezes imaginamos, não estamos sozinhos no mundo, ou pior, ele não gira em torno de nós e de nossos interesses. Admitir isto já representa uma evolução substancial.
Votando ao mote referente a aprender a ajudar, é necessário sim estar preparado para valorizar o outro tal como ele é, aceitá-lo até o limite do possível e ser capaz de um genuíno acolhimento. Ajuda muito poder entender o que se passa dentro de si mesmo, para ser minimamente capaz de aceitar que todos, na essência, somos semelhantes. Cada um, no entanto, tem o valor que atribui a si mesmo, apesar de que tantas situações externas podem nos levar a uma auto-desvalorização constante. Procurar fazer algo heroico ou publicamente notório não irá ajudar muito, só irá aplacar, por algum tempo, um sentimento de menos-valia. A questão seria vasculhar dentro de mim mesmo, para iluminar meus valores e méritos. E não é preciso imitar ninguém, existe, inclusive, um dito de que talvez seja melhor não conhecer pessoalmente pessoas públicas que se admira à distância, pois elas terão tantos defeitos quanto eu mesmo, serão apenas imperfeições diferentes. Se este lembrete faz bem para a auto-estima própria, que seja levado em consideração.

Saber ajudar é uma atitude apenas humana, nada mais. Sentir-se como um igual a qualquer outro é bastante benéfico. Toda atitude professoral ou com ares de superioridade poderá arruinar qualquer relacionamento que pareça promissor no início. Na realidade, tudo na vida é um diálogo, seja consigo mesmo, com outros seres humanos, com a natureza ou com objetos inspiradores que simbolizem algo marcante. Por outro lado, temos uma boca e dois ouvidos, que deverão ser empregados nas devidas proporções numéricas. Cabe ressaltar que até o silêncio profundo pode ser escutado com atenção. E a vida será sempre uma troca, entre o que vejo, ouço, percebo ou intuo e tudo o que vem do ambiente externo e que me toca de alguma forma.
A este ponto, acredito que cada qual já pode ter elaborado suas próprias lições de como aprender a ajudar. Se já o fez, por favor, compartilhe isto de forma permanente, a humanidade irá agradecer.



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