MEDO
- Alvaro Nunes

- 5 de abr. de 2024
- 3 min de leitura
Afirmar que o medo é um sentimento indesejado não corresponde à verdade. Talvez ele seja uma das sensações mais protetivas que se pode ter. Porém, a depender da forma de convivência em determinados momentos da vida em comum, talvez o medo possa estar sendo vítima de uma imensa deturpação. Tome-se como ponto de partida o afloramento atual de um suposto instinto de rivalidade que vem tomando conta praticamente de todos os relacionamentos pessoais e grupais. Esta tendência, valida apenas quando restrita a disputas formalmente estabelecidas, como as práticas desportivas, vem demonstrando um viés de constante disputa quase que como uma forma de viver. Há quem diga que “quem não tem inimigos não tem personalidade”.Esta ameaçadora frase parece estar sendo adotada como forma de conduta. E isto vem dilacerando os mais diversos estratos sociais, como que banindo qualquer tipo de acordo, de consenso, de respeito e de convívio harmonioso mesmo entre contrários. E tal estado de coisas vem deturpando até mesmo o conceito real do Medo, que deixa de ser um mecanismo natural de defesa para passar a ser um fim em si mesmo, acendendo um alerta perigoso, que predispõe à luta ou à fuga como alternativas. O medo como sinônimo de distanciamento preventivo foge de sua finalidade natural de proteção e de cautela.

Chega-se a um ponto em que se pode mesmo afirmar que se tem mais medo da vida do que da morte. Esta última, ao menos, é uma alternativa inexorável, bastando saber se ela virá rápida e sem sofrimento. Ao menos será melhor do que viver num estado de pavor permanente onde, ao se emitir qualquer opinião, uma agressão virá de imediato. Dizia o poeta Vinicius de Morais que “são demais os perigos desta vida”, mas, certamente, não considerou o perigo de uma sociedade em permanente divisão, vivendo no pressuposto de que qualquer conceito, uma vez manifesto, será impiedosamente alvejado. Neste estágio, nem se trata mais da existência de justificáveis medos, mas sim de um cerceamento da liberdade de se expressar. A título de exemplos, o medo tanto da doença quanto do remédio, o medo de perder uma discussão, o medo de ter a opinião contestada sem recurso, o medo da agressão radical, o medo dos falsos poderosos, estes não são medos, mas sim, horrores plantados pelos mercadores do engano.
Restam como possibilidades o silêncio constrangedor, a concordância intimidada e insincera ou, do outro lado, o confronto permanente. Convenha-se que tais alternativas estão o mais distante possível do que se considere construtivo ou, ao menos, satisfatório. Até parece que nosso planeta redondo estará em breve sendo fatiado, rompendo-se laços, afetos, entendimentos e cortando-se o tráfego da seiva que nos torna humanos, transformando-nos em seres beligerantes, sem mais nada em comum que justifique qualquer iniciativa de ajustamento e de compreensão. A divisão que ora se intenta, sob o disfarce mal disfarçado de uma enganosa ordem comum, parece até ser a reedição real da mitológica Torre de Babel, um malfadado projeto de poder único. Se assim for, na sequência, poderemos todos ser imagens errantes, falando idiomas
diversos, alimentando-nos do amargo fel das diferenças irreversíveis e condenando-nos a um final solitário. Talvez seja este o verdadeiro medo que nos assola, de uma experiência vital que não está dando certo, resumida numa única frase: “Ou você concorda comigo ou é meu inimigo”. Ao invés do medo que nos protege e nos leva a sugerir uma conciliação viável, passaríamos ao terror da falta de identificação, tanto pessoal quanto como grupo social.
Sempre houve tempo para retornar à razão, ao bom senso, ao entendimento, à valorização, ao respeito e aos bons sentimentos. Da mesma forma que a opinião pessoal não precisa ser cantada aos quatro ventos para se afirmar, já que ela é algo que cada um pode e deve guardar dentro de si mesmo, sua importância será diretamente proporcional ao esforço que se fez para validá-la como algo que oriente uma vida. E basta isto.





Comentários